sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Cidade Velha





Entorna-me entre os cantos vazios desta cidade,
nos sulcos,
nas frestas,
nas velhas lamparinas.
Faz-me passarela de putas,
de ordens marginais,
de cães a ladrar para o nada.
Na umidade,
na secura dos lábios cansados,
nos dedos amarelados,
na nicotina,
nas almas dos decadentes...
Coloca-me poesia entre os dentes
E um adocicado sonho na língua.


Paulo Antônio

terça-feira, 19 de janeiro de 2010


Ela o amava tanto, era sem fim em seu corpo esse amor.
Tomava conta do amor depois do sexo, naquele
começo de manhã. Tomava conta sozinha,
ele já voltara a dormir, suado, depois do
exaustivo exercício do gozo.
As suas unhas demonstravam o limite do
seu sentimento. Suas unhas amareladas
de nicotina e amor. Seu transtorno era amá-lo.
Havia no móvel, ao lado da cama, um prato
vazio e sujo, sinal de refeição preguiçosa
feita na cama, na noite anterior. Apanhou a
faca que estava jogada ao lado do prato
e contemplou aquele objeto sem vida,
que refletia, sem muita nitidez, o seu rosto.
O amor inchava o seu espírito, não era
capaz de controlar os movimentos de sua mão direita,
que golpeava o corpo adormecido do seu amado. Quanto amor!
O amor dele paralisava-se ali. Morreu.
Ela parou, olhou para si e golpeou o seu ventre. Finalmente
o seu espírito se libertava daquela forma passional. Seu amor
manchava o lençol da cama com um encarnado fluido. Já não
o amava. Deixara de existir ali, livrara-se da existência, livrara-se.
Sim, pois só se é livre, de fato, quando não mais se existe.
Seu transtorno a conduzira para a libertação...
Quantas facas haverá nesse mundo para libertá-lo?


Paulo Antônio e Luiza Pontes.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010


Delírios
a Luiza

O céu negro,
Com suas nuvens arroxeadas,
Parou...
Os velhinhos de mãos dadas,
A grávida,
O mendigo na calçada,
A coruja taciturna,
Também.

Levemente
Tudo se ergueu.
Em suspenso
Tudo flutuava

E, como num sonho,
Que se desfaz e se refaz lubricamente,
Eu andava ao teu lado Sem me notar ali.
Boiando na existência,
Sem pisar no chão

Eram seus lábios que se abriam
E a chuva de lírios que brotava de sua boca
E os lírios correndo ao redor de mim
E me tomando
E me chamando pra brincar de roda
E me enfeitando com seus aromas
E me dizendo deles...

Eu,
Logo eu,
Tão de ninguém,
Tão sem ninguém,
Agora brinco com lírios,
Agora sou de lírios
Delírios...


*Imagem: quadro A noite estrelada (1889), de Vincent Van Gogh

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


E A POEIRA SE FEZ LUZ
QUANDO O SOL ENTROU
PELAS FRESTAS DA JANELA.

MAS NO ACABAR DO DIA,
NÃO PASSAVA DE CINZAS AO CHÃO
ARRASTADAS E PISOTEADAS
PELOS PÉS DO ABANDONADO.

LUIZA PONTES.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Tarde alaranjada



Não vi os cacos se partirem
Entre esses dias vazios
Cheios de espaço,
De transbordante quietude.
Seriam os últimos?
E o seu sorriso se abre
Com o vento desta tarde alaranjada,
Coberta de solidão,
Coberta de estalos de lembranças.
Somos jovens já velhos,
Espantados com a pesada liberdade,
Com o sossegar dos que não pensam,
Com o bailar das folhas caídas,
Com o amor que ainda nos comove,
Quando, nesta tarde alaranjada,
Eu vejo o seu sorriso
E me sinto morto, em paz.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Cortejo


Olhos secos
Tais quais as bocetas velhas
Das carolas que descem
O cortejo fúnebre
Do filho bastardo do seu Menelau

Não sei como posso viver assim
Pensando naquelas bocetas mal-cheirosas
Olhando esse cortejo ignóbil
Sem um pingo de pena do seu Menelau
E com os olhos secos



* Imagem: detalhe do olho de São João,
do quadro A descida da cruz, de Roger van der Weyden.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Epifania III


UMA EXISTÊNCIA,
O FRUTO DO GOZO
DO MACHO E DA FÊMEA.
A NATUREZA NÃO TEM,
DE MANEIRA ALGUMA,
A PROCRIAÇÃO COMO FINALIDADE.

O MUNDO NÃO CARECE DE
MAIS UM SER PENSANTE.
MAS, MESMO ASSIM,
SE CRIA AFETO
PELO FETO.

E DEPOIS QUE APRENDEMOS
A ANDAR E NOS ALIMENTAR SOZINHOS,
DEIXAMOS DE RECONHECER
OS AUTORES DE NOSSOS DIAS.

UMA SERENIDADE INTENSA FARIA BEM,
MAS A NÁUSEA É MEU ESTADO NORMAL.
AO INVÉS DA TERNURA, UM TÉDIO PROFUNDO.

O TÉDIO DA EXISTÊNCIA,
A ANGÚSTIA DE SABER QUE SOU...
NADA. EXISTIDA.

Luiza Pontes